January 12th, 2008 by Tag Brum | Posted in cinema, colunas, cultura |

Para aqueles que se interessam pela vida destes dois tão opostos diretores (mas que mantinham um mesmo ideal), a briga do Debord com o Godard é fascinante. Os argumentos do Debord são plausíveis, mas, como sempre, extremamente radicais. Ele não tinha jeito mesmo.
Definitivamente: a maior diferença entre os dois franceses é a não contradição dialética do Debord. Não falo do cinema como algo SEPARADO, falo das escolhas da vida. Na retomada do pensamento Hegeliano, Debord foi além e viu que na análise da história pelas conseqüências finais das situações, o que resultava era sempre negativo. Guerras, revoluções, batalhas e lutas perdidas. Perdido, tudo negativo. O que sobraria? A crítica pela crítica?
Sim, de fato. A vida da tela estava longe, cada vez mais, como tudo está longe de nós hoje, como nós estamos longe de nós mesmos.
Godard, por sua vez, seguiu brilhando. Muitos o seguiram, ele foi importantíssimo pra despertar o gosto pela política por meio do sistema. Se a história do cinema tivesse sido feita por Debords, o único filme feito teria sido o maldito trem do Lumière e teria acabado aí por falta de público. Thomas Edison teria largado os “experimentos” (roubo de experimentos também) e teria ido pra culinária.
Debord era chato pra caramba. Andar com ele era insuportável. 24h por dia pensando, parecia um estrategista numa guerra. Nada era diversão, tudo era sério o tempo todo… Chato, horrivelmente insuportavelmente tedioso. A teoria dele era que a linguagem do sistema tinha que ser a mesma, mas oposta ao mesmo tempo. Ou melhor, ele seguia muito os ideais do Marx, como muitos da França naquela época… Mas os franceses seguiam o Marx jovem, aquele que ainda não estava bitolado com a produção econômica e ainda pensava e discutia a arte e todas as outras esferas da vida sob os mais diversos ângulos.
O Debord dizia que o sistema, mesmo no estado que estava lá naquele tempo, pegava toda e qualquer ideologia, pensamento, idéia, sonho, vontade que seja, e simplesmente reificava*. Lukács disse isso também, muitos anos depois** (*Reificação, vide - Marx / **Coisificação, vide Lukács – facilitem minha vida, Wikipedia por favor).
Ou seja, a velha historinha da camiseta “política” com a cara do Marx. Os motivos pelos quais vivíamos começaram a virar quase que propagandísticos. Os lemas viraram slogans, os gostos viraram moda. A moral de ajudar o outro pela igualdade de TODOS virou Criança Esperança e virou satisfação INDIVIDUAL, quando não dedução do imposto de renda. A diversão que tínhamos em andar pela cidade, sentar nas nossas praças e conversar, escrever e tocar nossas próprias músicas, nossos próprios versos e vidas, se tornou uma caminhada no parque pra aproveitar o sol e o bronze e ficar com o corpo saradão para aquela atriz gostosa da qual falei lá de cima. Tudo, tudo, tudo o que fazíamos começou a se esvaziar de significado. Começamos a perder (o) tudo que tínhamos.
Então Debord pensou que, se a vida tinha se tornado um jogo total, era preciso jogar contra totalmente.
“Não é um grau zero da escrita, mas a sua reinversão. Não é uma negação do estilo, mas o estilo da negação.” (os que conheceram Debord não escreveriam a fonte disso nem sob tortura, mas a frase é dele e é bem conhecidinha até).
Começar do zero agora era impossível. O sistema estava por tudo, nos milhares de setores que havia criado pra impedir separar o homem do total controle de si mesmo e da revolução por sua totalidade. Então partiríamos do que já havíamos CONQUISTADO POSITIVAMENTE. Se as pessoas naquele tempo se atraíam por filmes dramáticos, que as fizessem chorar pelo mocinho, faríamos o mesmo, mas chorariam pelas próprias vidas, que estavam deixando passar. Era preciso DESVIAR os signos (elementos, imagens, símbolos, ícones - tudo aquilo que o sistema dizia ser ideológico, mas que no fundo era pura propaganda só pra vender mais e mais e mais e produzir mais necessidade de ter ter ter e mais mais mais. O espetáculo havia transformado todos estes elementos em coisas equivalentes… Eram apresentados da mesma forma, oras. Tanto fazia desgraça ou bem-feitoria, tava tudo no mesmo saco, em liquidação.
Nos jornais, víamos “cenas” que se alternavam em “planos” cômicos e horrendos: bombas matavam em guerras e estrelas da TV se casavam em lindos vestidos… Nós, estudantes, éramos presos, torturados… Os poucos que pensavam em mudar algo eram silenciados… Muitos sumiram… Mas, no próximo bloco, aprenderíamos a cozinhar um croissant recheado para nossos maridos, que chegavam em casa cansados e queriam ter um momento feliz, vendo aquele programinha tão bom, naquele sofazinho tão confortável… É… Era um momento de real amor”. NÃO!
D-É-T-O-U-R-N-E-M-E-N-T!!!
Détournement. Foi assim que Debord chamou a tal nova tática dele. Para os brasileiros ficou “desvio”. Em inglês. ficou détour mesmo… Pro Stewart Home, um artista maluco meio punk, meio anarquista, que criou a revista Smile e participou do Neoísmo dos anos 70, o détournement era “plagiar elementos estéticos preexistentes e integrá-los a uma construção superior”. Tá certo, “O plágio é necessário. O progresso o implica. Ele se aproxima da frase de um autor, serve-se das suas expressões, apaga uma idéia errada e a substitui por uma correta. O desvio é a linguagem flexível da antiideologia.” Bom, disse o próprio Debord, né?
O Debord usou o détournement em absolutamente tudo… O Sociedade do Espetáculo mesmo, nunca conseguimos descobrir todas as referências e citações que ele simplesmente roubava e mudava. Frases inteiras de diversos pensadores se transformavam em frases do Debord ao atualizar o conceito, ao tornar a teoria prática, ao fugir da negação e entrar no campo positivo, o campo da construção. Debord nunca quis dizer quais havia usado… Gostava de dizer “deixem os imbecis com suas citações”…
Mas o desvio no cinema, sobretudo, chocava. Ele colocava no local correto estas guerras sangrentas que a TV e o cinema passavam como diversão: o lugar era o caos. Porque sim, a vida estava um caos e não havia Truffaut que nos fizesse chorar por pianista, noiva de preto, de rosa, nem de vermelho. Não queríamos ver nossa história NARRADA por Gravas, queríamos questionar o que era afinal NOSSA história. Aquela vida não era nossa, e quando era, era mostrada de forma manipulada, mentirosa! Quem decidia o que devia ou não ser lembrado, ser mudado, ser criado, COMO SER CRIADO?!
Détournement, détour, desvio: o détournement seria capaz de nos libertar ao revelar “a totalidade das possibilidades sociais e relações discursivas que extrapolavam as barreiras do espetáculo”… Disse a filósofa Sadie Plant. De fato, o método subvertia “as conclusões críticas passadas que foram petrificadas em verdades respeitáveis, isto é, transformadas em mentiras”.
Alguns diretores, porém, seguiram contando suas histórias SOBRE política, mostrando SEUS pontos de vista sobre NOSSA vida. Nós não queríamos aprender aquela história, nós queríamos construir nossa vida.
É… Alguns nasceram pra explicar os mitos e as cavernas, outros pra projetarem as sombras, outros pra admirá-las… Outros ainda pra criticá-las e uns, muito raros, pra acenderem a luz e acabarem com o show. O show devia parar. O show não pode mais continuar.
Apesar dos pesares, Godard viu isso no Debord e gostou - E USOU. Afinal, o plágio É necessário. Se Godard melhorou o desvio, esta nova prática do Debord ou não, como Debord mesmo sabia que era necessário, deixo pra vocês… Não quero impor gosto nenhum. Os dois são geniais e briguinhas e egos à parte, cada um teve seu papel no cinema.
Carta para Jane: uma investigação sobre uma fotografia (1972)
Diretores: Godard e Gorin (Grupo Dziga Vertov)
Acompanhemos alguns dos primeiros minutos de filme (pulo algumas das legendas referentes estritamente ao próprio filme Carta para Jane e não à proposta do Godard/Gorin para o cinema em geral):
46 - O filme ainda não responde com exatidão.
47 - Mas a razão pela qual ainda não responde é, em si,
48 - um modo indireto de propor as novas questões.
49 - Porque de nada serve dar antigas respostas às novas perguntas…
52 - e aprender com aqueles que,
53 - embora não tenham tido tempo de redigir claramente essas novas questões,
54 - já conquistaram o terreno onde poderão crescer e se expandir,
55 - e o conquistaram com uma nova prática.
59 - Uma forma indireta.
60 - Uma forma desviada.
61 - Agora, você pode compreender porque é necessário fazer um détour antes de falar do filme.
76 - O nosso real desejo é fazer uma discussão do filme com os espectadores…
84 - mas, para fazê-lo, devemos desviá-lo.
Aqui o Godard escureceu a tela, como na primeira aplicação do desvio do cinema Debordiano, em Uivos para Sade.
85 - Porque, do mesmo modo que um filme é uma espécie de desvio,
86 - que nos devolve a nós mesmos,
87 - para que nós possamos retornar a este filme,
88 - devemos, primeiro, fazer o desvio em nós mesmos.
O filme volta às imagens normais.
98 - Os espectadores têm que poder pensar efetivamente.
100 - Também é necessário que nós possamos ser perturbados pelas perguntas dos espectadores (ou respostas)…
102 - e que possamos responder (ou questionar)…
103 - com algo diferente destas respostas pré-fabricadas (ou perguntas) igualmente pré-fabricadas (ou respostas)…
104 - Mas, pré-fabricadas por quem? Para quem? Contra quem?
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Pois é isso… “A vida nunca pode ser perturbadora“.
Resolvi dar a fonte desta vez:
Guy Debord, Gil Wolman, Mode d’emploi du détournement, jornal surrealista Belga Les Lèvres Nues #8 - maio de 1956.
Para os que ousaram ler tudo, aproveitem.
Para os que quiserem ir além da leitura, um grande abraço.
Eles ditam nossa vida 24h por dia, nossa retomada deve ir muito além.
Sejamos realistas, exijamos o impossível.
Juliana Szabluk
P.s: as traduções das citações e legendas são minhas… Todas a partir do original (tanto Debord quanto Godard).
2 Responses to “>>Debord ou Godard?”
By Leonardo Bernardes on Jan 13, 2008
Gostei..
Só não entendi muito bem uma coisa: o texto não é seu, é de Juliana? Quem é ela?
By Leonardo Raimundi on Jan 17, 2008
Texto de concisão poderosa.
O momento da contradição que negando o momentâneo no espetáculo faz as pazes com a história. (primeira vítima da separação)
*só uma correção, o desvio não é invenção de Debord, é uma radicalização da paródia criada pela delinquência literária da Bauhaus imaginista. Quando em 1957 ela se juntou com a internacional letrista (formando a Internacional Situacionista) o Detournement foi posto a serviço da dialética pelo gênio de Debord.