The Secret [We'll Make Lots of Money]
A Nova Era tornou-se inevitável, como conceito papagaiado, na década de sessenta. A facilidade de estabelecer comunicação, e as novas camadas de globalização, possibilitaram que os derivativos de fadinhas e filosofias orientais mal digeridas penetrassem em, virtualmente, qualquer ramo de conhecimento. Outros fatores se somam a estes: a balançada da ciência diante dos novos desafios do muito grande e do muito pequeno, e o tédio generalizado das classes bem alimentadas mundo afora.
No caso da ciência, eu diria que o marco são os escritos de Fritjof Capra, que, vistos por um prisma crítico, ensejam alguma relevância. Capra, para mim, é o limite onde as divagações do riponguismo de butique deveriam cessar. Seus livros apenas resvalam em bobagens, ao contrário de bizarrices como What The Bleep Do We Know, que nelas chafurdam com gosto. O Segredo é visto por seus fãs como uma continuação de What The Bleep Do We Know. Aliás, os detratores devem dizer o mesmo, dado que as características realmente são semelhantes, parecendo até coisa dos mesmos produtores. Não, eu não pesquisei sobre isso, o filme não merece. Nenhum deles merece nada, nem pena, exceto algumas linhas de xingamento como as que você está lendo.
What The Bleep Do We Know possui o mérito de ser feito por pessoas inocentes. São pessoas abiloladas, como aquela especialista em pintura de cabelos que se diz psicóloga. São pessoas que cresceram sem contato com a realidade, brincaram demais com bonequinhos de massa, e viram demais aqueles canais educativos com historinhas construtivas. Elas são um produto do meio, e devem ser perdoadas, dado que produzem um filme como elas: bobo.
The Secret é bem diferente: é pernicioso, prejudicial. Um pouco de observação crítica revela, sob os pastiches de ideologias confusas e frases em contextos distorcidos, o objetivo único de adquirir posses materiais. O exemplo mais usado é este, e o espectador pode começar a se perguntar onde ouviu sobre isto antes. Onde? Nas doutrinas de qualquer igreja evangélica!
Certos pontos conseguem ser engraçados. Os caras, por exemplo, possuem as mais incríveis profissões. Um deles é “metafísico”. Deus, já imaginou o guri chegando para a mãe, e dizendo que quer ser metafísico quando crescer? Bom, nos velhos e saudáveis tempos, ele levaria uma bela surra, e iria fazer algo útil para a humanidade. Nos tempos do segredo, provavelmente vai ganhar um abraço forte e um filtro dos sonhos para preservar sua bela vontade.
Neste momento, salta aos olhos outra característica aviltante da filosofia pregada pelo filme: a pirâmide, que é considerada crime em diversas culturas. Como funciona: eu sou um guru e engano pessoas, que podem virar gurus também, e por aí vai.
O apelo do filme é simples e eficiente. Ele pega uma única lição importante, que é esticada, torcida, puxada e reprocessada ao longo de noventa minutos: nossos pensamentos influenciam o mundo ao nosso redor. Poucas coisas são mais óbvias do que isso. O universo todo depende de como o enxergamos, e apenas toupeiras oligofrênicas com QI inferior ao de ostras precisam de noventa minutos de lavagem cerebral para perceber isso.
O produto é excelente: tem um livro a reboque, e todo um monte de outros produtos pode se desenvolver a partir dele: outros livros, palestras, artigos para revistas, sabonetes, incensos, lacres em cera para cartas, roupas de guru, e por aí vai. O consumidor fica feliz, recheado de bobagens bonitinhas que justificam seu consumismo e seus sonhos fúteis, e o mundo segue para o abismo a passos largos.
Tem momentos em que o fato de vivermos apenas cem anos me conforta profundamente.
Por Gilvan Tessari do Sinestesia.






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